Recife

Igreja Nossa Senhora do Pilar

acesseigrejas on 09/06/2019

Igreja Nossa Senhora do Pilar

Sobre as ruínas do velho forte de S. Jorge, foi edificada a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, em conseqüência do voto pelo provedor da fazenda real… mais ou menos nestes termos se referem quase todos os documentos sobre este templo religioso do século XVII.(p. 2)

Já na época da expulsão dos holandeses, em 1654, o forte de São Jorge encontrava-se desativado, tendo sido cedido para servir de enfermaria, com a promessa de ser conservado interiormente enquanto não fosse necessário para operações bélicas.(p. 7)

Estava então abandonado o velho forte, coberto pelo mato, completamente em ruínas. É verdade que os seus baluartes continuavam de pé, que as suas ruínas contavam estórias gloriosas, mas a história não se preocupava ainda com ele.

Em 1679 o local onde se erguera o forte foi doado ao provedor-mor João do Rego Barros. Essa doação constava de 25 braças de terra entre as quais foi incluído o local onde se erguera o velho Forte de São Jorge, já em ruínas.

A doação ou sesmaria rezava assim: que o favor era das 25 braças de terra no sítio em que estava o Forte Velho e todos os seus úteis, e era para nele se fundar uma igreja de Nossa Senhora do Pilar.(p.8)

Tudo se havia originado entretanto de uma promessa feita pelo provedor-mor e por um motivo muito especial.

Não se pode esquecer que ele exercia as funções de Provedor da Fazenda Real, cargo de grande importância. Tão importante que em certa ocasião, teve que viajar a Portugal para prestar contas do dinheiro na corte.

…Apanhado Histórico

O senhor João do Rego Barros, andava receoso de que aquelas contas não fossem aprovadas por que elas não estavam boas e nem muito sãs (como diz uma notícia da época).

O jeito que teve foi recorrer à Nossa Senhora do Pilar e assim fez a promessa de que mandaria construir uma igreja em sua homenagem. A sua intranqüilidade era grande. Desde que fora chamado a Portugal não mais conseguir dormir. A sua consciência pesava não tanto pela consciência em si mesma, como pelo receio de terminar os seus dias numa fortaleza.

Pois bem, dizem os historiadores que ele conseguiu milagrosamente, livrar-se de quaisquer dúvidas sobre a sua honorabilidade. Nascia assim a Igreja de Nossa Senhora do Pilar.

Lá mesmo em Portugal, antes do seu regresso ao Recife, manda fazer uma imagem da Santa com dois palmos e meio, trazendo-a para cá. Essa imagem foi considerada na época uma das mais milagrosas, mas não se sabe que fim levou.(p.9)

Outro autor afirma: que o Sr. João do Rego Barros logo chegou ao Recife, deu princípio à obra que acabou com perfeição, e dotou com suficiente renda para a sua fábrica. Tem-se aumentado muito este Santuário, porque assim os moradores e os mareantes que vêm de fora, concorrem com boas ofertas, que se empregam no adorno e asseio desta Igreja, para a qual pagam os navios e também as embarcações que entram pela barra, certa devota pensão.(p. 10)

A Igreja de Nossa Senhora do Pilar ainda conserva a sua construção originária, em termos, na qual percebe-se a abóbada semi-esférica da capela-mor, revestida de azulejos pertencentes ao tipo da família “camélia” que, na época, foi muito difundido no Brasil. Dali irradiam-se 6 setores divididos entre si por azulejos de barra, exatamente igual à da capela-mor do Convento de Santo Antônio de Recife. Este convento foi construído em 1606 e 1613 semelhante aos conventos franciscanos portugueses e traçada pelo mestre pedreiro Manoel Gonçalves Olinda.(p. 15)

Planta Térreo

Planta térrea

Planta 1º Pavimento

Presume-se que toda a ermida ou pelo menos a sua capela-mor, tenha sido completamente azulejada. A sua data situa-se provavelmente depois de 1679 e é bem provável que o sr. Rego Barros tenha previsto também em Lisboa a encomenda dos azulejos, além da santa. Isto poderia situar a época dos azulejos. Esses azulejos são classificados por alguns autores entre os mais belos e impressionantes pelo colorido.

A Igreja do Pilar com o passar dos anos sofreu modificações no seu aspecto exterior, inclusive a torre que foi colocada na parte central do edifício, ao lado esquerdo. Entretanto, a sua maior reforma sofrida foi durante os anos de 1898 a 1906, ministrada pelo vigário da Paróquia, Padre João Augusto do Nascimento Pereira, auxiliado pelo povo que morava nas redondezas da Igreja, no lugar denominado “Fora de Portas”.

A pobreza arquitetônica de que se revestia, explica-se pela época em que foi construída, bem como, pelos motivos dos quais a sua construção se originou. Além de ter que justificar a doação das terras (que tiveram uma condição), teve também que prover o pagamento de uma promessa angustiante e pessoal, a fim de que um milagre fosse realizado.

Diz o autor A. J. V. Borges da Fonseca que a fundação da capela foi por volta do ano de 1680, mas ao que parece somente em 1683 é que foi concluída. Na verdade, em 1686 ela já estava pronta, pois conta-se que naquele ano chegaram a Pernambuco os padres Terésios – Carmelitas descalços.(p. 16)

Depois disto há uma referência àquela igreja já construída, isto em 1746. É do cronista Loreto Couto, que nos fala: saindo-se do Arco do Bom Jesus, fica a língua de areia que serve de estrada para a enseada de Olinda, e onde a poucos passos estão fundados os quartéis em que se recolhe a frente de guerra, que vem nas armadas, a grande casa da Junta e uma comprida rua formada de 140 casas e tem por coroa a Igreja de Nossa Senhora do Pilar Fala também o mesmo cronista que havia uma casa nobre e grande, que era a residência de João do Rego Barros, à direita da Igreja.

Outra referência vamos encontrar num autor desconhecido e que, em 1710, escreveu o livro com o título “Calamidades de Pernambuco”, dizendo que adiante indo sempre ao norte fica um boa ermida de Nossa Senhora do Pilar, imagem milagrosa, como testemunham muito painéis e seus devotos manifestam…

Além das casas referidas, ainda duas foram construídas para moradia do capelão e do ermitão. Sim, porque além da doação já referida, sabe-se que em 25 de fevereiro de 1682 o beneficiário citado obteve mais outras 25 braças de terra na praia do Recife, unidas às que já tinha tido, para construir algumas casas para os romeiros e outras mais para patrimônio da Capela que estava construída.

No testamento do Sr. João de Barros, celebrado em 27 de setembro de 1697, discrimina-se a celebração de uma missa cotidiana, na citada igreja, por sua alma, e determinou que o seu cadáver fosse ali sepultado.(p. 17)

O sr. João do Rego Barros foi preso nos últimos meses de 1710, mas diga-se de passagem, por ter sido envolvido ativamente na revolução dos mascates naquele ano. Dois anos depois, em 1712, morre preso na Fortaleza do Brum e seu corpo baixa ao solo da citada Igreja, conforme disposição testamentária. Dizem alguns autores que em lugar não identificado, enquanto alguns outros o localizam atrás da epístola.

A Igreja dali em diante foi sempre administrada pelos sucessores do Sr. João do Rego Barros, pois isto constava de uma ordem na verba testamentária. Entretanto, em 1831, por disposição legislativa, foram feitas as partilhas dos bens entre os herdeiros sobreviventes. E dali por diante caiu no domínio público, depois da posse de algumas pessoas estranhas à família do seu fundador.

Há uma biografia do capitão-mor João do Rego Barros escrita por A. J. de Melo e que foi impressa oficialmente em 1896. Há também citações no nono Dicionário de pernambucanos célebres.

Voltando-se às características próprias àquela Igreja, faremos algumas considerações em torno de certas peculiaridades arquitetônicas: defronte à sacristia encontra-se uma escada de alvenaria que dá acesso ao mesmo tempo ao púlpito, à torre sineira e ao coro. Este detalhe apresenta-se bastante curioso e inteligente, resolve simultaneamente os três acessos e nos chama atenção ainda a alvenaria, pois geralmente as vemos em madeira.

Outra peculiaridade estranha é a forma da torre sineira que não condiz com o espírito da época, porque ao invés do “maciço” encontrado nas demais, ela apresenta-se cheia de “recortes”. Além disto, essa torre, invocando a mesma época, deveria estar na fachada e não no centro, do lado esquerdo, como se encontra. Onde ela está situada, deve ter sido conseqüência das reformas sofridas, particularmente a de 1896 a 1908.(p. 18)

As únicas pinturas encontradas na Igreja de Nossa Senhora do Pilar são duas figuras de cabeça de anjo, na parte superior e de cada lado da parede do Altar-mor.

O Altar-mor escalonado em alvenaria e placas de mármore, está encimado com a imagem de Nossa Senhora do Pilar (guarnecida por uma vitrine), mede 1,5m; vinda de Portugal, da cidade do Porto, no século passado, encomendada pelo comerciante português Luís Gomes da Fonseca de Oliveira, seu devoto. A primeira imagem desapareceu da Igreja.

Desnuda de talha, reveste-se de grande simplicidade, todo interior da Igreja, o qual é ferido pela pintura marmorizada que cobre seus pórticos, arcos, retábulos e altares. Sua nave está protegida por um forro de madeira, plano, com pintura a óleo branca, espetado por tirantes de ferro, das tesouras que suportam a coberta.

Seu coro também é suportado por duas frágeis e delicadas colunas de ferro.(p.19)

Na escadaria principal, encontram-se alguns blocos de pedra, que provavelmente pertenceram ao velho forte de São Jorge e que serviram para compor antes a fachada da Igreja, como vergas e pilastras, o que tudo indica.

A Igreja localiza-se no local anteriormente conhecido como “Fora de Portas”, que significava estar “fora das portas do Recife”. Essas “portas” eram determinadas pelo “Arco do Bom Jesus” que ficava mais ou menos onde é hoje a praça Artur Oscar (também conhecida como Praça do Arsenal da Marinha).

As modificações urbanas alteraram inteiramente este significado, mas pode-se identificar através de vários testemunhos que o centro urbano do “Fora de Portas” era o pátio da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, lá os moradores realizavam suas festas populares, era considerado o ponto principal do “Fora de Portas”.(p.20)

Atualmente a Igreja encontra-se quase sem pátio, está a mesma espremida, oprimida entre as construções da Fábrica de Biscoitos Pilar, seus atuais patronos.(p.21)

Na ocasião da realização deste inventário (fevereiro de 2005), a Igreja de Nossa Senhora do Pilar encontrava-se totalmente abandonada, com suas entradas entaipadas e o seu interior bastante danificado (nichos e altares desmontados) e cheio de lixo; o entorno da Igreja encontra-se ocupado por favelas (a chamada Favela do Rato, ou, Comunidade do Pilar). E com a maioria dos seus bens móveis sob a guarda da Igreja da Madre de Deus.

Este texto é uma edição da seguinte obra: MOTTA, Geraldo Majella Loreto da. Igreja de Nossa Senhora do Pilar e suas circunstâncias históricas. Recife escola de Arte da Universidade Federal de Pernambuco, 1975. Monografia apresentada no Curso de Aperfeiçoamento em História da Arte, não publicada. As páginas de onde foi transcrito o texto estão respectivamente elencadas ao final de cada parágrafo, em formato sobrescrito (por exemplo: (p. 2) refere-se à MOTTA, Geraldo Majella Loreto da. Igreja de Nossa Senhora do Pilar e suas circunstâncias históricas. Recife escola de Arte da Universidade Federal de Pernambuco, 1975. Monografia apresentada no Curso de Aperfeiçoamento em História da Arte, não publicada. P. 2.).

Pesquisado emBiblioteca do IPHAN de Pernambuco

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